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Heitor Augusto,  “MIX Brasil 2008: Doc registra imagens em ‘banheiro gay’ nos anos 60.” cineclick.uol.com.br, 15/11/2008.

Tearoom reúne 56 minutos de imagens filmadas pela polícia de Ohio.

Em junho de 2007, o senador americano Larry Craig, do Partido Republicano, foi preso por “comportamento obsceno” em um banheiro público. Craig, membro do partido que costumeiramente se opõe a direitos aos gays, passou uma cantada em um policial, que o prendeu. O caso fez com que o político passasse a ser conhecido como “o senador do banheirão”. O “banheirão” é uma gíria do mundo gay que designa paquera em banheiros.

Mais de quatro décadas atrás, muito antes de os gays conseguirem qualquer tipo de direito civil, um caso marcou o estado de Ohio. Em 1962, mais de trinta homens foram presos por sodomia, contato libidinoso entre pessoas do mesmo sexo. Antes de serem enviados a penitenciárias, muitos passaram por “tratamentos”. A base legal para os processos foram 56 minutos de imagens registradas pela polícia da cidade de Mansfield.

Essas imagens foram resgatadas pelo cineasta William E. Jones e se transformaram no filme Tearoom, que será exibido em sessão única neste sábado (15/11) às 18h30 no Auditório do MAM, São Paulo. “No início dos anos 60, o “banheirão” era praticamente o único lugar no meio-oeste dos Estados Unidos onde homens poderiam encontrar outros homens”, definiu o diretor em entrevista por e-mail à reportagem do Cineclick.

O longa não tem narração ou som. São apenas as imagens registradas pela polícia que, por sinal, tinha um senso mínimo de montagem. Os três primeiros minutos do longa são preenchidos com imagens de dois policiais montando a “arapuca” por trás de um espelho para filmar o que acontecia. “A polícia filmou por oito horas por dia, sete dias da semana, durante três semanas”, explica.

Na detalhada entrevista abaixo, Jones fala sobre seu filme, um documento histórico que transita entre a reflexão dos diretos dos homossexuais e o olhar voyeur e fetichistas. “Gays mais velhos que se lembram daquele tempo têm muito a dizer sobre o filme, porém os jovens têm muita dificuldade em entender a luta por liberdade que os mais velhos travaram”.

A seguir:


Heitor Augusto: O que originou a espionagem da Polícia?

William E. Jones: Uma combinação única de fatores. No início do verão de 1962, um homem chamado Jerrel R. Howell abusou de duas garotas em um parque de Mansfield, Ohio. Quando as garotas tentaram escapar dele, foram mortas. A polícia o prendeu em horas e ele confessou o crime. Num astuto gesto, provavelmente calculado para levar outros com ele para a prisão, Howell ironizou a polícia por não saber o que estava acontecendo na região à frente de seus olhos. Ele disse que a primeira vez que recebeu sexo oral, o ato que supostamente teria iniciado sua carreira criminosa, foi no banheiro embaixo do Central Park de Mansfield. Na tentativa de confundir a opinião pública e fazê-los relacionar pedofilia e homossexualidade, o chefe de polícia Clare Kyler decidiu combater a “perversão sexual”.

Kyler elaborou uma operação de espionagem que resultou nas imagens de Tearoom. O Departamento de Polícia foi informado sobre o que se passava, mas a operação foi mantida em segredo do governo da cidade e da opinião pública até as prisões serem feitas. De fato, há imagens de crianças no filme, incluindo um garoto pegando um jornal de uma lixeira e outro indo fumar escondido. Os policiais orientaram os cameramen a procurar por evidências de abusos.


HA: Quantas horas a Polícia de Mansfield filmou em 1962?

WEJ: Até onde eu sei, os 56 minutos de filmagens que estão em Tearoom é tudo que foi filmado. O filme não foi feito por um dispositivo automático: um policial operou a câmera e fez escolhas sobre quem e o que filmar. O policial/cameraman se escondeu no privativo do banheiro atrás de um espelho oito horas por dia, sete dias da semana, durante três semanas. Todos os dias eles utilizaram um rolo inteiro de filme em 16mm. Isso, quando projetado, dura 2 minutos e 45 segundos. Os oficiais passaram muitas horas parados, sem filmar, esperando por algum acontecimento sexual envolvendo os homens no banheiro. Talvez eles mesmos presenciaram homens que conheciam e não quiseram filmá-los. Ou viram homens poderosos demais para serem presos durante o período. Nós nunca saberemos o que eles deixaram de filmar, mas, certamente, os policiais viram mais do que registraram.


HA: Como as imagens foram utilizadas nos processos e prisões?

WEJ: A operação de espionagem exigiu que uma rede de policiais se mantivesse em contato. Após um suspeito ter sido filmado no banheiro, o cameraman ligava para um policial descrevendo as características da pessoa. Esse outro oficial parava o suspeito e pedia que se identificasse usando um pretexto qualquer. Baseado nessa informação, prisões foram feitas todas de uma vez tempos depois. As imagens registradas foram usadas como prova nos julgamentos. Como resultado da operação, mais de trinta homens foram condenados por sodomia [contato libidinosos entre pessoas do mesmo sexo], que segundo a legislação de Ohio à época era crime. A pena girava em torno de um ano em penitenciárias comuns, apesar de muitos homens permaneceram presos por um período maior, e muitos receberam “tratamento” psiquiátrico para curar a homossexualidade antes de irem para as prisões. Tudo isso aconteceu em uma cidade com cerca de 40 mil habitantes.


HA: Como você soube da existência das imagens?

WEJ: Dois anos após as prisões no caso dos “banheirões”, o Departamento de Polícia de Mansfield produziu um filme chamado Camera Surveillance. O filme, que instruiu agências legais de como proceder na vigilância ao sexo em lugares públicos, usa algumas imagens da filmagem original feitas pela Polícia de Mansfield. Eu tive contato na internet anos atrás, apesar de o conteúdo ter saído do ar desde que o assisti. Comecei a pesquisar sobre o caso, que me provocou interesse particular porque eu cresci perto de Mansfield, Ohio.

Alguns anos depois, assisti ao filme Hell’s Highway, um documentário que trata um pouco sobre o caso de Mansfield. Eu entrei em contato com o diretor, Bret Wood, e ele me revelou que o Chefe de Polícia de Mansfield resguardou o filme a pedido. Este homem manteve as imagens em sua garagem por 40 anos. Wood foi muito generoso em me permitir fazer um transfer do filme original e utilizar no meu filme.


HA: Como os espectadores de outros países reagiram ao filme?

WEJ: Eu geralmente apresento o filme pessoalmente, então posso responder às questões do público, que são muitas. As reações variam. Alguns se mostram curiosos, já outros reagem com raiva. Os espectadores de festivais dedicados ao público gay geralmente reconhecem a importância histórica das imagens, enquanto a maioria dos espectadores não faz a mínima idéia do que é o “banheirão”. Gays mais velhos que se lembram daquele tempo têm muito a dizer sobre o filme, porém os jovens têm muita dificuldade em entender a luta por liberdade que os mais velhos travaram, apesar de eu já ter tido respostas positivas de jovens lésbicas. Freqüentemente, um homem - e é sempre um homem! - grita e se mostra contrariado com o filme, eu tenho de ter muita habilidade para lidar com essa situação. Eu acho que o filme provoca uma profunda e desconfortável resposta em homens que têm dificuldade em lidar com a própria sexualidade.


HA: Por que você decidiu apresentar Tearoom sem narração ou edição? Não há possibilidade de os espectadores assimilarem apenas a faceta voyeur das imagens?

WEJ: A filmagem é resultado de escolhas dos policiais com as câmeras. Eu não quis confundir os espectadores impondo minhas escolhas pessoais no material. O que o espectador assiste é um documento não apenas do que os homens filmados fizeram, mas também do que a polícia fez. As imagens estão longe da objetividade. Não há ângulo reverso ou imagens das reações dos cameramen quando os homens se estimulavam, mas, em alguns momentos, o jeito de filmar revela indiretamente uma reação
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Em determinado momento, quando um rapaz sexy de camiseta branca abaixa as calças para um homem no banheiro, a câmera chacoalha para cima e para baixo freneticamente. Em diversas ocasiões, é possível perceber no espelho a imagem do cameraman lambendo os lábios. Os oficiais podem não ter sido hábeis para perceber as reações (inconscientes?) para o “banheirão” que acontecia à frente de seus olhos, mas o espectador hoje, anos depois, pode percebê-las. Eu apresentei as imagens sem edição e sem áudio para que o espectador possa ver como era a vida gay em outra era e tirar suas próprias conclusões.


HA: No Brasil, o “banheirão” ainda é um símbolo da cultura gay. Atualmente, como é nos EUA? Eles estão limitados a rodovias, como no passado?

WEJ: No início dos anos 60, o “banheirão” era praticamente o único lugar no meio-oeste dos Estados Unidos onde homens poderiam encontrar outros homens. Não havia bares abertamente gays, a não ser nas grandes cidades. De acordo com histórias que ouvi de homossexuais mais velhos, o “banheirão” ocorria por toda Ohio, não apenas em rodovias. Eu já ouvi histórias de um no Palácio de Justiça, que funcionários e oficiais utilizavam. A situação mudou radicalmente, mas ainda há alguns homens que preferem “banheirão”. Muitos deles estão “no armário” [não assumem a homossexualidade], mas muitos vão apenas por achar excitante ou porque o tipo de homem que eles curtem não vão a bares. Jovens tendem a não se interessar pelo “banheirão”, talvez porque eles acham o que procuram entre amigos ou até mesmo na internet.